terça-feira, 29 de janeiro de 2013

ESCOLA E SOFRIMENTO (Rubem Alves)

 RUBEM ALVES;  A ALEGRIA DE ENSINAR.

Queria falar de educaçao...Das discrepâncias que vejo na educaçao de meus  filhos, e da sua crescente falta de entusiasmo por aprender, da perda continua de criatividade, da falta de motivaçao de seus professores e deste círculo vicioso, dos métodos completamente defasados, da minha indignaçao... Mas vou deixar que fale este escritor e filósofo  Mineiro. Em uma de suas  crônicas do Livro A Alegria de ensinar, vou transcrevê-la aqui e verao que ela (ele) já diz tudo...!!!

"ESCOLA E SOFRIMENTO

Estou com medo de que as crianças me chamem de mentiroso. Pois eu disse que o negócio dos professores é ensinar a Felicidade. Acontece que eu nao conheço nenhuma criança que concorde com isso. Se elas tivessem aprendido as liçoes da política, me acusariam de porta-voz da classe dominante. Pois, como todos sabem, mas ninguém tem a coragem de dizer, toda escola tem uma classe dominante e uma classe dominada: a primeira, formada por professores e administradores, e que detêm o monopólio do saber, e a segunda, formada pelos alunos, que detém o monopólio da ignorância, e que deve submeter o seu comportamento e o seu pensamento aos seus superiores, se deseja passar de ano. Basta contemplar os olhos cheios de ansiedade para compreender que a escola lhes traz sofrimento. O meu palpite é que, se se fizer uma pesquisa entre as crianças e os adolescentes sobre as suas experiências de alegrai na escola, eles terao muito o que falar sobre a amizade e o companheirismo entre eles, mas pouqíssimas serao as referências à alegraia de estudar, compreender e aprender.
A clase dominante argumentará que o testemunho dos alunos nao deve ser levado em consideraçao. Eles nao sabem ainda...Quem sabe sao os professores e os adminstradores.
Acontece que as crianças nao estao sozinhas nesse julgamento. Eu mesmo só me lembro com alegria de dois professores dos meus tempos de grupo, ginásio e científico.
A primeira, uma gorda e maternal senhora, professora do curso de admissao, tratava-nos a todos como filhos. Com ela era como se todos fôssemos uma grande família. O outro, professor de literatura, foi a primeira pessoa a me introduzir nas delícias da leitura. ele falava sobre os grandes clássicos com tal amor que deles nunca pude me esquecer. Quanto aos outros, a minha impressao era a de que nos consideravam como inimigos a serem confundidos e torturados por um saber cuja finalidade e cuja utilidade nunca se deram ao trabalho de nos explicar. Compreende-se, portanto que entre as nossas maiores alegrias estava a notícia de que o professor estava doente e nao poderia dar a aula. E até mesmo uma dor de barriga ou um resfriado era motivo de alegria, quando a doença nos dava uma desculpa aceitável de nao ir à escola. Nao me espanto, portanto que tenha aprendido tao pouco da escola. O que aprendi foi fora dela e contra ela. Jorge Luis Borges passou por experiência semelhante. Declarou que estudou a vida inteira, menos nos anos em que esteve na escola. Era, de fato, difícil amar as disciplinas representadas por rostos e vozes que nao queriam ser amados.
Essa situaçao, ao que parece, tem sido a norma, tanto que é assim que aparece frequentemente relatada na literatura . Romain Rolland conta a experiência de um aluno:

...afianl de contas, nao entender nada já é um hábito. Três quartas partes do que se diz e do que me fazem escrever na escola a gramática, ciência, a moral e  mais um terço das palavras que leio, que me ditam, que eu mesmo emprego- eu nao sei o que elas querem dizer. Já observei que em minhas redaçoes as que eu menos compreendo sao as que levam mais chance de ser classificadas em primeiro lugar.
Mas nem precisariamos ler Romain Rolland: bastaria ler os textos que os nosso filhos têm de ler e aprender, concordo com Paul Goodman na sua afirmaçao de que a maioria dos estudantes no colégio e universidades nao deseja estar lá. Eles estao lá  porque sao obrigados.
Os métodos clássicos de tortura escolar como a palmatória e a vara já foram abolidos. Mas poderá haver sofrimento maior para uma criança ou um adolescente que ser forçado a mover-se numa floresta de informaçao que ele nao consegue compreender, e que nenhuma relaçao paracem ter com sua vida?
Compreende-se que, com o passar do tempo, a inteligência se encolha por medo e horror diante dos desafios intelectuais, e que o aluno passe a se considerar como um burro. Quando a verdade é outra: a sua inteligência foi intimidada pelos professores e, por isso, ficou paralisada.
Os técnicos em educaçao desenvolveram métodos de avaliar a aprendizagem e, baseados em seus resultados, classificam os alunos. Mas ninguém jamais pensou em avaliar a alegria dos estudantes - mesmo porque nao há  métodos objetivos para tal. Porque a alegria é uma condiçao interior, uma experiência de riqueza e de liberdade de pensamentos e sentimentos. A educaçao, fascinada pelo conhecimento do mundo, esqueceu-se de que sua vocaçao é despertar o potencial único que juz adormecido em cada estudante. Daí o paradoxo com que sempre nos defrontamos quanto maior o conhecimento, menor a sabedoria. T.S. Eliot fazia esta terrível pergunta, que deveria ser motivo de meditaçao para todos os professores: "Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?"
Vai aqui este pedido aos professores, pedido de alguén que sofre ao ver o rosto aflito das crianças, dos adolescentes: lembrem-se de que vocês sao pastores de alegria, e que a sua responsabilidade primeira é definida por um rosto que lhes faz um pedido: "Por favor, me ajude a ser Feliz..." "




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